Minha garota
Eu amo de olhos vendados.
Não sei como posso amar minha garota,
Todos os seus professores
Fizeram-lhe a cabeça com foice e martelo.
Eu tento em vão falar-lhe de liberdade.
A minha garota ri alto,
Fala atrevido,
Não raspa o suvaco
E cospe em praça pública.
Não sei em que rua escura encontrei minha garota,
Não sei se essa loucura tem cura.
Minha garota prega o vermelho,
Diz coisas rasas e acha-as profundas.
Minha garota fala mal dos judeus,
Mas ignora que Marx era judeu.
Ela não acredita que só quem leu Marx
E que não entendeu é que virou marxista;
Quem o leu e entendeu, não caiu nessa.
Eu amo de olhos vendados.
Minha garota odeia os americanos do norte,
Ela ama a diversidade,
Ama a China, ama a Rússia e Coreia do Norte,
Mas nunca viu negros por aquelas bandas,
Muito menos um presidente;
Ela não vê que os gays eles costumam matá-los.
Eu amo de olhos vendados.
Minha garota me desespera,
Ela sofreu lavagem cerebral ideológica,
Ela pensa que todas as ruas ficam sempre à Esquerda,
Tomou pílulas dos defensores dos mais fracos,
Desses mesmos que deixam os fracos cada vez mais fracos
Para se apoderarem do poder e deixarem o povo a lamber sabão,
Sem liberdade, vida de cão chupando manga.
Minha garota segue Gramsci à risca.
Coitada, o quem vem depois... Gramsci só conta para os seus.
E ela não tá lista.
Eu amo de olhos vendados.
A minha garota não vê
Que a Esquerda só quer colher os frutos
Da árvore que a Direita planta.
Mas um dia o dinheiro vai acabar,
Pois o dinheiro acaba sendo sempre o ponto fraco,
O desespero total. É fatal.
Para a minha garota voltar a me amar
É só o dinheiro acabar,
E ele vai acabar, já está acabando;
Quando acabar de vez
E nem grana pra comprar papel higiênico restar,
Aí a minha garota, finalmente, irá me amar.
Pena que pode ser somente um sonho.
Se Gramsci vingar,
Nem eu e minha garota nos reconheceremos mais,
O paredão nos emparedará em tiros de fuzis
De Maos, Stalins, Guevaras...
Ou nos condenará a viver como eternos zumbis.
José Edward Guedes
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